sexta-feira, 18 de junho de 2010

Um José que nunca pensou em ser Saramago

José Saramago se foi. Você já deve saber. Eu fiquei sabendo na internet pela manhã. Ao ligar o computador confesso que fiquei zonza. Chamei o Fernando no MSN e disse "O Saramago morreu". Não pontuei a frase. Não pedia uma exclamação e nem tão pouco um ponto final. Era um vazio estranho.

Confesso que não o conhecia a fundo. No ano passado, em Lisboa, cheguei a acompanhar um debate televiso sobre Caim, o livro na época recém-lançado. De um lado Saramago, determinado e conciso, de outro um sacerdote da igreja católica, mero coadjuvante. Quase vinte anos depois de ter escrito o polêmico romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo - livro censurado pelo governo português que levara o escritor a exilar-se em Lanzarote - lá estava ele novamente cutucando a onça com vara curta na TV portugesa.

Mas ao que tudo indica, ele era assim mesmo. Seguro de si. Uma personalidade com personalidade.

Cada vez mais sós

Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro.

José Saramago, em "Deste Mundo e do Outro", Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216

Ateu e comunista, o escritor nasceu em 16 de novembro de 1922, em Azinhaga, uma aldeia ao sul de Portugal. Filho de agricultores sem terra que imigraram para Lisboa, abandonou a escola aos 12 anos para receber formação de serralheiro, um ofício que exerceria durante dois anos.
 
Vencedor do único Prêmio Nobel da Literatura em língua portuguesa, em 1998, o escritor José Saramago morreu hoje na ilha de Lanzarote (uma das Ilhas Canárias, Espanha), onde morava desde 1993, em consequência de uma múltipla falha orgânica.
 
Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário do Registo Civil, por sua própria iniciativa, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago. (Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres). Só aos sete anos, quando tive de apresentar na escola primária um documento de identificação, é que se veio a saber que o meu nome completo era José de Sousa Saramago... Não foi este, porém, o único problema de identidade com que fui fadado no berço. Embora tivesse vindo ao mundo no dia 16 de Novembro de 1922, os meus documentos oficiais referem que nasci dois dias depois, a 18: foi graças a esta pequena fraude que a família escapou ao pagamento da multa por falta de declaração do nascimento no prazo legal.
 
Trecho retirado da autobiografia do autor postada no site da Fundação José Saramago 
 

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